segunda-feira, 13 de novembro de 2017


sábado, 11 de novembro de 2017

William Waack em livro: pela inteligência e contra o racismo

William Waack é autor de um dos livros mais interessantes já publicados sobre a história brasileira, “As duas faces da glória”, trabalho com pesquisa cuidadosa e bem escrito sobre um período de máxima importância para o nosso país — o da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, com a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, na Itália. O jornalista da Rede Globo, que agora é tachado como racista nesta lamentável algazarra digital, foi atrás do assunto e fez uma obra que além de trazer com bastante fundamento a nobre história desses homens valorosos é muito saboroso de ler. Além de escrever bem, ele sabe destacar detalhes interessantes do convívio humano, inclusive com histórias ligeiras e até divertidas, que servem como referência para contextualizar o sentido mais amplo do tema de seu livro.

O livro esclarece bastante sobre um período da nossa história cuja bibliografia de qualidade é bastante rara em relação à importância que a campanha da FEB teve para o Brasil. Foi a partir dessa participação na luta contra o nazismo na Europa, após a volta dos combatentes brasileiros, que ocorreu a queda da ditadura de Getúlio Vargas. Muito mais poderia ter sido extraído dessa experiência (talvez até um exército nacional mais qualificado), mas infelizmente por aqui falta memória e estudo. O livro aponta com equilíbrio as dificuldades do Exército Brasileiro, trazendo também boas referências sobre a capacidade de superação dos brasileiros, lidando com deficiências materiais que tiveram que ser supridas depois pelos americanos. Existem também boas informações sobre a honestidade pessoal dos nossos soldados, com destaque ao respeito à integridade física do inimigo vencido. Já aos 71 anos de idade, o capitão alemão Lotar Mull contou à Waack que ficou aliviado quando soube que seria preso por brasileiros. Até foram salvos de linchamento. “Nos protegeram da fúria da população”, disse Mull. “Ao meu lado”, ele lembra “um soldado negro ainda disparou sua arma para o alto para conter o povo”.

O jornalista da Globo trabalha muito bem com documentos oficiais. Essa habilidade valeu para que ele fizesse também outro livro, “Camaradas”, este sim odiado por esquerdistas. É excelente. Trata da relação da esquerda brasileira com a antiga União Soviética. Mas é neste trabalho sobre a FEB que é possível ler vários trechos em que o jornalista trata da questão racial, falando dos soldados negros que foram lutar na Europa, avaliando a situação deles internamente, nas tropas brasileiras, além do efeito de sua presença sobre o inimigo nazista. O respeito de Waack pelos recrutas no geral é evidente, sem nenhum desvalor racial. O livro é de 1985 e teve duas edições — a segunda, em 2015. Até que é muita coisa para um país sem memória, como o Brasil. Waack entrevistou sobreviventes inclusive das tropas nazistas. Uma delas foi com o tenente Klaus Dietrich Polz, capturado depois de uma batalha com os brasileiros. Ele tinha então 20 anos. A qualidade do jornalista pode ser constatada pela surpresa dele, que só meio século depois ficava sabendo que virara personagem da história da FEB. Preso, o oficial alemão foi colocado num caminhão entre um motorista negro e um sargento branco. Suas palavras: “Era uma grande novidade para mim. Eu nunca tinha visto um homem negro”.

Num trecho de “As duas faces da glória”, Waack informa que entre nove nacionalidades que estavam entre os aliados, o XIV Exército alemão passou a colocar também “negros” como “nacionalidade” especial, segundo o jornalista, “numa irrefutável demonstração de racismo”. Todas as referências de Waack sobre questão racial neste período são de críticas ao racismo e muito bem exploradas para que o leitor tenha uma compreensão do problema e sua interferência na atuação militar. A partir de depoimentos de sobreviventes alemães, ele refuta o racismo da propaganda nazista, que afirmava que os “negros” seriam particularmente ferozes e animalescos em seu comportamento com prisioneiros

Havia confusão da parte dos alemães entre brasileiros e “negros”, que veio de uma interpretação equivocada dos organismos de inteligência nazista, ao colocarem erradamente a FEB como subordinada à 92a Divisão de Infantaria americana. Essa unidade, diz Waack, era formada exclusivamente por soldados negros dirigidos por oficiais brancos, “fato que impressionou muitíssimo os brasileiros”. Neste estranhamento — e aqui entro eu com minha opinião — pode-se ver o contraste entre as relações raciais no Brasil e nos Estados Unidos. Infelizmente, por interesse político, a militância racialista prefere nivelar dois universos completamente diversos, procurando apagar virtudes brasileiras evidentes no relacionamento entre brancos e negros, que pode ser vista na segregação racial que os americanos mantiveram até no exército que foi lutar na Europa. Para mim, é a ausência de boa vontade para chegarmos à formas de melhor convivência e respeito mútuo que está na raiz dos ataques a William Waack, de quem não se sabe de nada que possa justificar essa horrível acusação, de fato uma das piores que existem, que é o racismo. São enormes as dificuldade que vão sendo criadas por essa atitude militante que valoriza sempre o conflito, passando por cima do verdadeiro conhecimento e da necessidade de entendimento. Essas maquinações precisam ser detidas. Esse derramamento contínuo de ódio pode dificultar ainda mais o caminho para que haja no Brasil mais respeito pelos direitos civis.
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POR José Pires

William Waack: bola da vez na algazarra digital

A Rede Globo podia fazer um bom serviço ao país, não cedendo ao justiçamento rotineiro que ocorre nas redes sociais, do politicamente correto e da má-fé dos interesses políticos, partidários, servindo até para o fortalecimento interpares em grupelhos do que se chama agora de “ativistas”. Como todo mundo sabe, a vítima do momento é William Waack, um dos mais preparados profissionais do jornalismo brasileiro. Até lamento que ele esteja esses anos todos na televisão, porque é um dos melhores na palavra escrita, com amplo conhecimento em um assunto no qual o Brasil vai ficando cada vez mais carente, que é a área internacional do jornalismo. Sendo uma terra de paradoxos, no Brasil não podia faltar mais este: na época em que tudo de mais importante e influente é o conhecimento globalizado, morre o nosso jornalismo internacional.

Mas voltando ao afastamento de William Waack, feito pela Globo, a emissora deixa claro na nota que a decisão é até que a situação esteja esclarecida. Bem, eu já acho estranho que a maior empresa de comunicação do país tenha se dobrado de imediato a uma grita nas redes sociais, tendo como única prova material um vídeo no qual nem dá para ouvir direito o que o jornalista diz. Além disso, o vídeo é um daqueles materiais de espera da televisão, até a entrada no ar. Não é uma manifestação racista colocada no ar ou dita em um dos programas comandados pelo jornalista, inclusive um dele próprio, de entrevistas e debates, na Globo News. Sobre essa acusação, por sinal, não existe na longa carreira de Waack absolutamente nenhuma fala sua ou material escrito onde haja sequer uma insinuação que possa ser vista como racismo.

Já apareceram duas figuras que se responsabilizaram pelo vazamento e pela retirada das imagens da Globo, de forma clandestina. São eles o operador de VT Diego Rocha Pereira e o designer gráfico Robson Cordeiro Ramos. O primeiro é ex-funcionário da Rede Globo. Os dois são produtores de uma festa de “música negra” na cidade de São Paulo. Bem, eu sou da opinião de que não existe música negra. O músico B. B. King também achava isso e até se irritava quando diziam que ele fazia “música negra”. Estava certo. Arte de verdade é universal. Além do mais, pobres das crianças negras com esses conceitos que a militância racialista quer fazer emplacar. Já pensaram que tristeza ter que ver, desde pequeno, um Beethoven, um Villa-Lobos e tantos outros gênios como homens de outra raça? Mas é William Waack que eles acusam de racista. Vamos ao fato.

Um dos divulgadores, com acesso como funcionário da emissora ao link do jornalista durante cobertura das eleições americanas de 2016, pegou sem autorização um material que seria descartado. É difícil saber o que está sendo dito, mas pode ser mais um comentário fazendo piada com um comportamento racista. Muitos já fizeram isso, em mesa de bar ou reunião com amigos, com a diferença de que não foi gravado e de que essa pessoa não é alvo político. Não vou entrar em debate aqui se isso está certo ou errado, mas é um fato indiscutível que não é uma piada besta que configura racismo, mesmo moralmente. Bem, aí um ano depois esse material cai na mixórdia da internet brasileira, onde no geral só se destaca o que há de pior e sem substância de qualidade. A isso junte-se também a ciumeira e o ressentimento que rola pesado nos meios profissionais, o que não é pouco no jornalismo brasileiro, principalmente entre o primeiro escalão, dos altos salários e muito poder.

Daí o sucesso do ataque, que não é pelo que William Waack estaria dizendo no vídeo, mas pelo que ele pensa de verdade sobre outras coisas e pelas consequências positivas da sua atuação, principalmente nos últimos tempos, para limpar o país da influência destruidora do projeto de poder da esquerda, não só no Brasil como também em seus planos continentais que abrangem toda a América Latina. Tomara que a Rede Globo resolva pela volta de Waack, o que vai fazer bem não só ao jornalismo da emissora como a todos nós, que já não aturamos mais tanta patrulha, com tanta maledicência e falta de compromisso honesto com o país, nesta algazarra digital que só favorece gente que busca interferência para o favorecimento de grupos e partidos.
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POR José Pires

Presente de Papai Noel para corruptos

No Brasil, a gente espera de tudo, mas sabe-se que sempre existe a possibilidade até de vir mais um pouco. O indulto natalino concedido pela Presidência é uma das ferramentas da impunidade, que aliás já teve uso entre companheiros durante a era petista na presidência da República. O ex-ministro José Dirceu foi um dos beneficiados por este absurdo poder de perdoar criminosos. No que se refere aos corruptos, o indulto já não era bom. Mas conseguiram piorar.

Nesta quinta-feira, o MPF de Curitiba, da força-tarefa da Lava Jato, se posicionou contra indulto natalino nos crimes de corrupção. Em carta ao Conselho Nacional de Política Penitenciária e Criminal, os procuradores afirmam que, caso mantidos no futuro os critérios do último decreto de indulto (n.º 8.940/16), diversos réus condenados por crimes gravíssimos na Operação Lava Jato cumprirão penas irrisórias. O decreto é do presidente Michel Temer, de dezembro do ano passado. A concessão do indulto se refere aos condenados sem grave violência ou ameaça. E aí entra a corrupção. Nunca se soube de corrupto arrancando dinheiro dos cofres públicos com a faca no pescoço de alguém, no entanto é sempre muito grande a quantidade de vítimas da corrupção, inclusive mortos e feridos por consequência da roubalheira.

Eles explicam que, pelo decreto de Temer, “um condenado por corrupção a 12 anos de prisão será indultado após cumprir 3 anos, se for primário. Um condenado por corrupção a 12 anos de prisão, se for primário e tiver mais de 70 anos de idade, será indultado após cumprir apenas 2 anos”. Acontece que o perfil desse tipo de criminoso é de pessoas de meia-idade, já que o corrupto é favorecido em nosso país pela possibilidade de adiar durante anos o julgamento de um processo. Na carta são apontados o caso “Lalau”, do desvio de mais de R$ 160 milhões do TRT-SP, e o caso “Maluf”, do notório político paulista. Maluf deixou de ser julgado em processos da época em que foi governador nomeado de São Paulo, mandato que terminou há 35 anos. O criador do termo “malufismo” é beneficiado há décadas pela falta de firmeza da Justiça brasileira com a corrupção.

Outro fato interessante ressaltado no documento dos procuradores da Lava Jato é que no crime de colarinho branco tradicionalmente os réus não são reincidentes. Mas isso se deve aos crimes raramente serem punidos e não por terem sido honestos no passado. Acontece muito também de na condenação as penas serem extintas por prescrição. Daí a quantidade de bandido de colarinho branco que permanece com a imagem de inocente, alguns até se gabando disso. Com o indulto sob a responsabilidade do tipo de presidente que o Brasil costuma ter, o resultado é mais impunidade. E com Michel Temer, aí é que não dá para ter confiança alguma. Até em razão da necessidade de defesa do próprio interesse, ele já demonstrou total falta de escrúpulo no uso do poder para diminuir a capacidade da Justiça em prender corruptos.
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POR José Pires
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terça-feira, 7 de novembro de 2017

O tarado Tariq Ramadan e as ameaças ao Charlie Hebdo

É preciso ter coragem para trabalhar no Charlie Hebdo. O jornal francês teve parte de sua redação assassinada por terroristas islâmicos, em janeiro de 2015, quando 12 pessoas foram mortas a tiros, entre elas os cartunistas Wolinski e Cabu, duas figuras históricas do moderno humorismo internacional. Por causa de cartuns satirizando Maomé os fanáticos criminosos entraram na sede do jornal atirando e gritando exaltações religiosas a Alá.

Pois o Charlie Hebdo volta a ser ameaçado, desta vez por causa de uma capa com Tariq Ramadan, o teórico islâmico e professor que está sendo acusado de estupro. As denúncias foram formalizadas por duas mulheres. Ramadan teve divulgado nesta terça-feira seu afastamento da Universidade de Oxford, onde leciona. A direção da instituição informou em nota que a licença foi “por mútuo acordo” para permitir ao professor “responder às acusações extremamente graves contra ele”.

A capa do Charlie Hebdo explora as acusações de estupro com uma caricatura de Ramadan com uma enorme ereção, fazendo sua defesa. “Sou o sexto pilar do Islã”, ele diz. O desenho foi alvo de muitos xingamentos nas redes sociais e áreas de comentários de sites, como costuma ocorrer com temas polêmicos. Só que no caso de uma publicação como o Charlie Hebdo já está demonstrado que o ódio de extremistas islâmicos e seus simpatizantes não fica só no bate- boca, como é usual internet. Os editores do jornal já formalizaram denúncia em relação às ameaças de violência.

Além do mais, pelo tema em que é especialista e por sua posição política, Ramadan tem a simpatia dos setores mais violentos dos muçulmanos. Ele teria também ligação com grupos extremistas perigosos, como a Irmandade Muçulmana, do Egito, fundado em 1928 por seu avô materno, Hasan al-Banna. Em artigo recente, mas anterior às ameaças ao Charlie Hebdo, a jornalista francesa Caroline Fourest falava dos riscos que corre quem critica o professor muçulmano. Ela é professora no Instituto de Estudos Políticos de Paris e também colaboradora do Charlie Hebdo.

“Estou bem situada para saber da violência que são capazes as redes da Irmandade Muçulmana quando alguém enfrenta o ‘irmão Tariq’”, ela escreveu. A jornalista é severa crítica na França das posições de Ramadan frente ao extremismo islâmico. Os dois já se enfrentaram em um debate que ficou famoso. Neste artigo sobre as acusações contra o professor agora afastado da Universidade de Oxford ela falava da coragem de Henda Ayari, uma das mulheres que denunciou Ramadan. Neste mesmo texto, Fourest aponta a hipocrisia do professor, segundo ela de comportamento parecido com o do produtor americano tarado Harvey Weinstein, só que mais violento.

Ramadan, que agora responde a dois processos formalizados por agressão sexual, costuma atuar muitas vezes de uma forma que nas redes sociais costuma ser chamada de “isentão”. Fazendo de conta que é imparcial, ele bate forte em quem aponta os riscos da religião islâmica para as liberdades individuais. Logo depois do atentado ao Charlie Hebdo ele insinuou que pela forma do humor do semanário, os jornalistas assassinados brutalmente teriam uma parcela de culpa no episódio. Ou seja, as vítimas da violência seriam culpadas por exercer a liberdade de expressão, um direito que tem o máximo respeito na França. Conforme o próprio Ramadan já foi obrigado a concordar, um lugar aberto a debates que são impossíveis de serem feitos em qualquer país muçulmano.
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POR José Pires

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Caetano Veloso e seus companheiros libertários

Caetano Veloso se queixa na imprensa da proibição de sua apresentação em invasão de sem-tetos no ABC paulista. É mais uma jogada dele. O embargo pedido pela prefeitura até defende a integridade física do público, sempre um risco em show improvisado, ainda mais no clima explosivo nesta ocasião, na qual ele dá uma de suas aproveitadinhas. No local, só de gente pobre querendo uma casa para morar são cerca de 7 mil pessoas. A ocupação em um terreno de São Bernardo é organizada pelo MTST, movimento liderado por Guilherme Boulos. A cidade onde mora o ex-presidente Lula era até há pouco comandada pelo grupo de Luiz Marinho, político ligado por laços de amizade ao ex-presidente e prefeito pelo PT por dois mandatos. Na eleição de 2016 o partido de Lula sequer foi para o segundo turno. Agora o prefeito é Orlando Morando, do PSDB.

Marinho foi denunciado pelo Ministério Público Federal por fraudes em licitações, desvios e superfaturamento de recursos da obra do Museu do Trabalho e do Trabalhador, uma das encrencas sérias de Lula com a Operação Lava-Jato. Há denúncias de desvio de R$ 11 milhões nas obras da instituição conhecida como “Museu do Lula”, iniciadas no final do segundo mandato do petista na prefeitura, mas que ficaram paradas por quase um ano e estão inacabadas. O ex-prefeito Marinho é um dos desastres administrativos do PT. Foi reeleito com um rombo de R$ 987,5 milhões e no segundo mandato fez sua própria dívida explodir. Deixou a cidade com uma dívida de R$ 2,2 bilhões.

Estas informações são importantes para situar bem o contexto político e econômico do lugar onde Caetano Veloso resolveu posar como artista ligado à justiça social, situando também a questão no plano da política nacional. Ainda que se faça de independente e queira se colocar como ativista imparcial dos direitos civis, na verdade Caetano atua como vanguarda do partido que jogou o país na maior tragédia econômica, social e cultural de sua história. São informações relativamente fáceis de coletar e deviam obrigatoriamente estar presentes em toda matéria na qual o artista baiano joga sua lorota social.

Sem nenhuma intenção de partidarizar a questão, mas apenas deixando mais claro o papel interpretado cinicamente por Caetano, cabe observar também que Boulos não teve tanta preocupação com justiça social na cidade enquanto a administração era de um maioral do PT, em paralelo com o mesmo partido no governo federal por dois mandatos seguidos. Que grande chance perdida para fazer “justiça social” e talvez até uns bons shows de protesto, não é mesmo?

Este neolibertário é também o mesmo artista que formou um grupo recentemente para garantir por lei o poder de personalidades vetarem biografias em desacordo com a visão do biografado. Felizmente não deu certo a tentativa de instaurar esse tipo de censura. Seria brutal o retrocesso cultural, podendo acabar com a publicação de biografias no país. Mas que ninguém pense que tanta contradição é fruto da ambiguidade própria de um artista de sensibilidade, na qual não caberiam essas materializações políticas. O foco do compositor é essencialmente material. Encaixa como ninguém em Caetano aquele jargão do “fulano sendo fulano”, usado para identificar atitudes muito marcantes em uma pessoa. Caetano está sempre sendo Caetano, como ele faz agora com esta apresentação que pretendia fazer para os miseráveis manipulados pelo grupo político de Boulos, que ambiciona até ser candidato a presidente da República.

O compositor é um manipulador da mídia, habilidade que exerce desde a ditadura militar. Claro que o sucesso dessa utilização se deve aos benefícios mútuos. Ele fornece à imprensa material que pode ser transformado em notícias supostamente polêmicas. O custo é baixo, com pouca necessidade de trabalho jornalístico, na reportagem ou pesquisa. Dá para fazer pelo celular, inclusive vídeos e fotos. Às vezes até pelo email. Caetano é garantia de audiência, com baixo custo para as empresas e nenhuma necessidade de esforço do jornalista. Esta barganha facilitada vem dando certo, tanto é que com ela construiu para si um prestígio superestimado como artista. Não que ele não tenha uma obra, não é disso que estou falando. O que ocorre é que hábeis jogadas de exploração das mais variadas situações vêm garantindo para ele durante anos uma evidência exagerada em relação à sua real qualidade artística. É até injusto na comparação com profissionais de altíssimo nível, que ficam fora da mídia, ocupada o tempo todo por ele como fenomenal artista brasileiro, graças ao seu poder de manipulação conjugado com uma imprensa de valores editoriais cada vez mais baixos.

Bem, veremos como ficará no futuro, com a obrigatória acomodação do fato político à dimensão artística de cada um. Teremos então a avaliação da obra e não das performances casuais. Na questão propriamente artística ele próprio sabe que na memória nacional não há jeito de ser mantido este alargamento forçado na atualidade. E na questão política, dependendo do que poderá ser feito para ao menos minimizar a tremenda crise que está só no começo, Caetano corre o risco de ser lembrado com desprezo e talvez até com ódio pelos brasileiros que no futuro terão que segurar este terrível rojão que foi acendido por seus companheiros atuais.
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POR José Pires

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Imagem- Caetano e uma dileta companheira quando estava no poder: para ele, foi golpe

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O bate-boca de Gilmar Mendes e Barroso e lembranças de um passado recente

O falecido Ivan Lessa, grande jornalista brasileiro, um dos criadores do semanário O Pasquim, é autor de uma frase que diz que “de dez em dez anos o brasileiro esquece os últimos dez anos”. Isso já era muito ruim na época da criação da frase, no final dos anos 70, quando o país já queimava neurônios. Um lugar sem memória resulta sempre em precariedade política e cultural, que no geral abre espaço para o pior, especialmente para as trapaças da política. Não foi à toa que chegamos a essa situação trágica atual, da qual não se vê perspectiva de saída.

A perda de memória do brasileiro já era de efeito dramático quando ocorria de dez em dez anos. Então imagine o estrago de agora, com este período bastante diminuído. Com a fragmentação terrível da comunicação, sem a relativa sistematização que era feita antes pela imprensa e com a intelectualidade caindo na safadeza à direita e à esquerda, a memória coletiva vem pifando em questão de meses. Estou dizendo isso em razão da polêmica criada pelo bate-boca entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, nesta quinta-feira, no plenário do STF. Os dois trocaram acusações gravíssimas, que na minha opinião mereceria para cada qual um processo.

Aponto a questão da memória exclusivamente no que Gilmar Mendes falou sobre Barroso. Todo mundo já aceitou as acusações de Barroso. Na sua fala, Gilmar Mendes insinua que Barroso absolveu o ex-ministro José Dirceu por motivações que não seriam exatamente de motivação legal. De imediato, o ministro alegou que sua decisão obedecia ao indulto presidencial assinado por Dilma Rousseff. Mas fugia do assunto de fato. E como vivemos em um país em que a memória é descuidada mesmo em assunto importante como o do mensalão, todos caíram na embromação de Barroso. Gilmar Mendes tentou alertar de que falava de outra coisa, mas como ele é a bola da vez em satanização política, todos se concentraram na fala agressiva de Barroso, muito objetiva por sinal, mas ainda opinativa, mesmo que haja razões para desconfiar muito de Gilmar Mendes.

Não tem indulto algum no assunto trazido novamente ao debate por Gilmar Mendes, desta vez em forma de acusação. O indulto presidencial usado por Barroso como justificativa é de outubro do ano passado. Gilmar Mendes falava é da votação dos embargos infringentes, que apareceram de surpresa já na finalização do julgamento do mensalão, em setembro de 2013. Os brasileiros nem sabiam o que era esse negócio, que na verdade, até pela forma que surgiram, lembravam mais uma negociata. Luís Roberto Barroso foi um apoiador não só do acatamento dos embargos infringentes pedidos pela defesa dos mensaleiros, como até se entusiasmou no final na aprovação desses embargos, que livraram José Dirceu e mais sete de uma condenação importante, que se fosse aplicada provavelmente teria evitado a roubalheira do petrolão, que viria depois. De dez anos e dez meses, em regime fechado, a pena de Dirceu caiu para sete anos e onze meses de prisão, em regime semiaberto. Cabe lembrar que Barroso não estava no STF quando as penas do mensalão foram definidas. Só entrou no julgamento dos embargos, depois de nomeado por Dilma Rousseff em junho de 2013.

Com os embargos, Dirceu livrou-se do crime de formação de quadrilha, que fez do mensalão na visão do julgamento do STF um esquema curioso: ocorriam por casualidade os crimes da ampla rede que operou por mais de dois anos e que na peça acusatória do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, aparecia ligada a três núcleos: político-partidário, o publicitário e o financeiro. A tese de Barroso foi a de que houve coautoria e não quadrilha no mensalão. Durante o julgamento que livrou Dirceu, o ministro Barroso teve também um bate-boca com outro ministro de personalidade forte, Joaquim Barbosa, que criticou o voto pela absolvição dizendo que o voto foi um "discurso político". Mais que isso, Barbosa disse também que o julgamento dos recursos teve influência de “maioria formada sob medida para lançar por terra o trabalho primoroso levado a cabo por esta Corte no segundo semestre de 2012”. Ele falava da condenação dos criminosos, que sem os embargos teriam recebido penas maiores. Pela desgraça que vivemos atualmente, já se sabe que o Brasil teria tido muito menos prejuízos com esse pessoal na cadeia.
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POR José Pires

Lula e a culpa do poste

Quem ainda defende Dilma Rousseff, que se prepare, porque parece que para Lula seu governo subiu no telhado feito o gato da anedota. O ex-presidente já começa a colocar a culpa em sua sucessora pelo insucesso do projeto petista de poder. Bem, para quem até já estabeleceu como estratégia de defesa jurídica botar a culpa na falecida mulher, Marisa Letícia, até que demorou em apontar o dedo para seu poste. O assunto entrou na pauta de Lula em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, publicada no último domingo.

Lula afirma que eles começaram a perder credibilidade com o anúncio de ajuste fiscal feito por Dilma. Com isso, conforme suas palavras ao jornal espanhol, “o eleitorado que a elegeu em 2014, para o qual havíamos prometido que manteríamos os gastos, se sentiu traído”. O chefão petista fala de outros assuntos atuais, como a crise na Venezuela, o governo de Donald Trump e até da crise na Catalunha. Nas suas respostas deve ter feito ao menos um bem ao povo espanhol, que precisava mesmo desopilar o fígado. Em meio aos problemas com o nacionalismo catalão umas risadas podem fazer bem.

Sobre Nicolás Maduro, claro que Lula passa longe do autoritarismo cruel do ditador bolivariano. Merece ser transcrito na íntegra o que ele diz sobre a matança na Venezuela: “Não entendo por que a Europa se preocupa tanto com Maduro, afinal ele foi eleito democraticamente e os venezuelanos têm que resolver seus problemas entre eles”. Já sobre Trump ele vem com uma piada pronta. Disse que fica surpreso com o presidente americano se pondo a falar sobre tudo. E indagado pelo entrevistador sobre sua opinião quanto ao problema com o separatismo na Catalunha, não se contentou em tratar o assunto de forma geral. Resolveu dar um conselho ao rei Felipe VI, por quem, bem a seu modo, disse conhecer e “ter muito carinho”. Como não podia deixar de ser, o “conselho” que ninguém pediu é banal. Para ele, o rei tem que exercer “papel de mediador”.

Tem mais outras patacoadas na entrevista ao El Mundo. Como eu disse, Lula pelo menos ofereceu aos espanhóis a chance de espairecer um pouco de seus problemas dando umas gargalhadas. No entanto, na política nacional já fica claro que o governo Dilma entrará na pauta petista como bode expiatório da derrocada do projeto petista. A culpa é do poste. E para manter esse discurso é evidente que Lula já deve ter à mão um monte de recibos falsos para mostrar como prova.
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POR José Pires

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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Temer: um governo que é o que lhe parece

Se as aparências enganam, Michel Temer resolveu demonstrar claramente que não há engano algum na cara desonesta de seu governo. Nove ministros foram despachados para a Câmara Federal para votar a seu favor. É o governo do bate-volta. São exonerados dos ministérios, votam como deputados pelo chefe e depois voltam a ser ministros. É claro que esta é a desmoralização definitiva de seu governo, se é que isso pode ocorrer com algo que nunca teve moral. E quanto aos partidos e deputados, também fica absolutamente visível que os ministérios são uma troca, com os mandatos valendo como moeda. Para este governo não deixa de ser um avanço. Dispensa os brasileiros de se deixarem levar pelas aparências.
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POR José Pires

Bolsonaro ao natural

O jornalista Claudio Dantas, do site O Antagonista, fez uma boa entrevista com o deputado Jair Bolsonaro, que permite compreender bem o nível do pré-candidato. Como Bolsonaro anda bastante ocupado fazendo campanha eleitoral fora do prazo legal, Dantas teve que colar nele a partir das cinco horas da manhã, acompanhando-o numa visita a Uberlândia. A entrevista foi se desenvolvendo durante o deslocamento do deputado até Minas Gerais, o que acabou resultando num formato de reportagem e deu naturalidade ao diálogo entre o jornalista e o político.

A viagem produziu também outro vídeo, que nada tem a ver com O Antagonista, mas mostra também de forma natural como é o candidato que a direita oferece para salvar o país. Em Uberlândia, Bolsonaro disse a um público reunido em volta de um caminhão-palanque que tinha muito orgulho de "também ser paulista desse estado maravilhoso que é a locomotiva da nossa economia". Em um cochicho no ouvido, foi avisado por um assessor de que estavam em Minas Gerais, mas não adiantou. Ele ainda disse que "como integrante do Exército brasileiro" queria saudar a Polícia Militar de São Paulo. Então pediu "uma salva de palmas para a Polícia Militar de São Paulo". Da plateia gritaram "Minas Gerais" e o deputado foi alertado novamente por gente que estava em cima do caminhão. Só então ele entendeu que não estava no estado de São Paulo.

A direita brasileira está com um problemão. Antes da largada conseguiram uma candidatura que surpreende nas pesquisas, mas que nasce com um sério problema que precisa se resolvido com urgência: o próprio candidato. Na entrevista, o jornalista de O Antagonista conseguiu extrair muita coisa que permite conhecer a complicação que será para que Bolsonaro chegue a 2018 com credibilidade para a disputa de fato, quando terá de enfrentar debates e questionamentos. Tudo indica que ele terá muita dificuldade com questões mais sérias que "pagar flexões". Uma boa mostra de como anda a cabeça de Bolsonaro é revelada numa significativa pergunta que saiu não do entrevistador, mas dele mesmo. "Eu tenho que entender tanto de economia?", foi o que ele perguntou de volta quando Dantas quis saber quais são suas diretrizes para a economia, indagando sobre nomes da equipe econômica e sua opinião sobre a atual situação do país neste setor.
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POR José Pires

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Defesa de Lula investe na comunicação

A defesa de Lula vai atuar também nas redes sociais. Agora é oficialmente, claro, já que desde o início dos processos contra o chefão petista a atuação de seus advogados tem como foco colocar a opinião pública contra a Justiça. O modo de agir está mais para agitação política do que defesa jurídica. Tentaram tirar Moro do sério, com uma agressividade que eu duvido que seria tolerada no sistema judiciário de outros países. Não deu certo em razão do equilíbrio de Moro. Mas a intenção era a de criar um estrago na imagem dos nossos tribunais. Como forma de defesa foi desenvolvida por eles a tática absurda de encenar uma criminalização política do próprio juiz. Que até agora não tenham tomado uma reprimenda legal diz muito da precariedade do sistema judiciário brasileiro para colocar em seu devido lugar os poderosos metidos em ilegalidades.

Mas agora o uso da comunicação política é oficial. Cristiano Zanin e Valeska Teixeira têm sob contrato de seu escritório profissionais para produção de imagens, com vídeos sendo feitos no ritmo de um por dia. A equipe conta com roteirista, produtor e câmera. O jornal Folha de S. Paulo não obteve respostas sobre o custo da estrutura. Também não se sabe quem é que paga, conforme lembrou bem o site O Antagonista. E eu pergunto como é que pode ser permitido algo assim. Imaginem quando esse material cair nas redes, a confusão que pode ser criada sobre o real entendimento das pessoas de como se dá o andamento de um processo jurídico e sobre a imagem dos advogados. Usando a máquina federal, Lula bagunçou a política brasileira e agora pretende bagunçar também a imagem do direito brasileiro e do sistema judiciário. O serviço é completo.
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POR José Pires



Caio Blinder sai da Jovem Pan: a imprensa brasileira perde mais qualidade

Os ouvintes da rádio Jovem Pan perderam Caio Blinder. Ele esteve na emissora durante 23 anos. A rádio também demitiu outros profissionais. O jornalista é mais um nome conhecido na onda de demissões na imprensa brasileira e fará falta em um setor que já sofre desmonte há tempos, o jornalismo internacional. Caio é um dos melhores do ramo, além do que, traz suas informações e análises diretamente dos Estados Unidos. É muito bem informado e tem conhecimento histórico, principalmente da política americana, essencial para situar-se no mundo. Outra qualidade importante sua é o cuidado em assinalar fatores culturais na política americana. Seu texto é muito bom e ele sabe fazer o assunto ficar divertido, sem alterar a profundidade necessária não só do conhecimento da política internacional, como de qualquer outra forma de relação humana.

A queda de qualidade do jornalismo internacional em nossa imprensa ocorre já há algum tempo — em 2015 o próprio Blinder saiu do site da Veja, onde ficou cinco anos. A demolição vem de muito antes da popularização da internet. É o que ocorre também com as demissões, cuja relação não é só com o advento de novas tecnologias, ao contrário do que se costuma dizer. É uma política antiga de várias empresas jornalísticas, com um ponto histórico neste caráter destrutivo, que teve até nome: "reengenharia". Atinge televisão, rádios e claro que segue curso na implantação desses veículos na internet. Basicamente, o objetivo é lucrar mais, com menos esforço financeiro e menor interação com o jornalismo, principalmente no que se refere à influência política e criativa do próprio profissional em seu trabalho. Neste aspecto, sempre foi acirrada a disputa nas empresas jornalísticas, no que pode ser resumido como um embate entre o interesse comercial e o jornalismo. Publicações que alcançam um bom meio termo sempre tiveram o melhor conteúdo. Na internet, os sites já começam com as redações por baixo. Não é preciso dizer qual será o resultado, até pelo fato de que hoje em dia a baixa qualidade de conteúdo da internet brasileira já permite ter uma ideia para onde isso pode nos levar.

A demissão de Caio Blinder —sem falar de tantos outros profissionais experientes que se foram do mercado — mostra em parte o andamento da comunicação no Brasil e pode servir também para observarmos graves deformações no comportamento político e cultural no Brasil. Certas reações à sua demissão mostram como vamos mal. A cultura brasileira vem sendo prejudicada bastante pela abertura geral ao internauta de má índole, gente ignorante do que comenta e por isso o mesmo sempre tomados de uma violência impressionante. No geral, claro que não passam de bravateiros, mas o problema é que ocupam os espaços com aquela audácia própria dos que não sabem que nada sabem. E os veículos procuram satisfazer esses bandos. A própria Jovem Pan, por exemplo, tirou Caio Blinder, mas a rádio mantém grupos de jornalistas palpiteiros e de comportamento exótico, que passam horas conversando fiado e estimulando a pauleira.

O risco é que este clima acelere ainda mais o rumo equivocado da imprensa ou até desça ainda mais de nível na qualidade do objetivo. Já tem muito site que em seu formato editorial procurando contentar esse tipo de gente. Existe também uma satisfação da direita, que atualmente parece em maioria na exposição cotidiana de desatinos, mas cabe alertar que o clima de grosserias independe de ideologia. Vale sempre o tom dos que tem mais poder no momento. E isso é cíclico no Brasil. Só não muda a qualidade. A direita anda animada e se comporta exatamente como os petistas faziam no poder. Até comemoram certas demissões, como ocorre nas redes sociais com o fim da participação de Caio Blinder na Jovem Pan. Um problema desses brucutus nativos com o jornalista é que ele é crítico a um presidente que lhes chutaria o rabo na primeira oportunidade: ele mesmo, Donald Trump. Agora a direita solta fogos de apoio à demissão de bons profissionais, da mesma forma que o petismo (que logo depois deu chabu) comemorava quando saía algum jornalista que contrariava o interesse de Lula e seu partido. O estilo é o mesmo: mentiroso, caluniador, difamante. A falta de informação e conhecimento, a grosseria, o mau gosto e a má fé só mudaram de lado.
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POR José Pires

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Aécio Neves leva vantagem e leva também o PSDB para o buraco


Existe a "Vitória de Pirro" — que todo mundo sabe o que é — e existe a vitória do senador Aécio Neves. Precisamos achar um nome para isso, principalmente pelo efeito desta "vitória" em seu partido, o PSDB. Os tucanos, no geral, precisam ter garantido um bom lucro nas transações do senador mineiro, senão terão que passar por idiotas por terem jogado seu partido definitivamente no buraco depois da votação de ontem no Senado.

Aécio Neves descobriu uma forma muito interessante de tomar empréstimos, que é recebendo o dinheiro em espécie, em malas conduzidas por um portador, bem diferente dos empréstimos normais depositados na conta do tomador. Espera-se que a chefia dos tucanos tenha recebido cada qual sua mala estofada (depois pode-se matar o portador), porque o custo do que foi feito ontem vai pesar muito na imagem do partido.

O PSDB entrará na eleição de 2018 com este fato muito forte influenciando a rejeição do partido, que já era considerável. Os tucanos já teriam dificuldades eleitorais só pela participação no governo de Michel Temer, presidente que ficou conhecido por seus despachos secretos noturnos. Com a votação que beneficiou o presidente do partido, Aécio Neves, o PSDB cravou em si uma marca terrível, do desprezo pela ética e do acoitamento de uma corrupção sistemática que deforma as instituições e destrói a qualidade administrativa.
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POR José Pires

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Imagem- A imagem não é meramente ilustrativa. Uma parte dessa dinheirama era para o senador Aécio Neves, até ser apreendida pela Polícia Federal


Danilo Gentili: a crítica do crítico

Nunca gostei do comportamento de Danilo Gentili, desde a época em que existia aquele lamentável programa de televisão, o CQC, onde supostos comediantes fingiam ser jornalistas para acossar artistas e políticos, forçando situações constrangedoras e extraindo cenas impactantes para o programa obter audiência. Do CQC saíram duas estrelas, Gentili e Monica Iozzi, uma de direita e outra de esquerda, lamentáveis quase na mesma medida, o que não poderia ser diferente em razão da origem dos dois e do fato de não terem acrescentado nada de mais inteligente às suas atividades. Pode-se prever um futuro de muito sucesso para essas figuras. Vivemos tempos em que a capacidade técnica e a criatividade foram rebaixadas como critérios de mérito.

A esquerda também não gosta de Gentili, mas evidentemente não é pelo meu padrão de avaliação. A militância do PT e de outros partidos esquerdistas costumam atacar o apresentador de televisão mais por qualidades inerentes ao que ele faz do que por seus defeitos. É o que vem acontecendo neste episódio da demissão de um jornalista da Folha de S. Paulo, ocorrido logo após uma entrevista com Gentili. A demissão de Diego Bargas veio da polêmica entre ele e o apresentador, que não gostou da matéria publicada pelo jornal sobre seu filme "Como se tornar o pior aluno da escola", com estreia recente.

Com o advento das redes sociais essas polêmicas ficaram comuns e costumam ser usadas até com objetivo meramente comercial, como parece ser nesta polêmica artificial. É evidente que ele está usando a esperteza de sempre. Batendo de frente com a Folha conseguiu colocar seu filme como um assunto dos mais comentados. Ele faz isso de forma pesada. Seu humorismo é grosseiro, com o uso inclusive de escatologia, sexismo dos mais chulos, apelando até para deficiências humanas congênitas. Ele surfa numa onda atual, em águas sujas que instigam um público da pior índole.

A pressão que este tipo de celebridade pode lançar sobre os adversários não é justa e exige ser melhor regulada pelo bom senso editorial dos veículos de comunicação, mas quem se mete em comunicação tem a obrigação de saber que este é o processo que envolve hoje em dia o debate com certas figuras de peso na internet. Um jornalista de um órgão como a Folha tem ainda menos justificativa para se fazer de desavisado depois de entrar em polêmica com alguém como Gentili. Isso é tão verdadeiro que o próprio jornal determina regras contratuais de comportamento para seus jornalistas nas redes sociais. E foi pela transgressão dessas regras que o jornalista foi demitido e não pelo fato de Gentili ter “pedido sua cabeça”, como tem muito esquerdista espalhando por aí.

E olhem que este foi um dos casos em que Gentili pegou menos pesado, levando em conta que ele é o sujeito que esfregou nas partes baixas um documento enviado pela Câmara Federal em nome da deputada Maria do Rosário, filmou a cena e pôs o vídeo na internet. Neste quiproquó armado por ele com a Folha, o apresentador apenas divulgou o vídeo da entrevista para o jornal (no qual o entrevistador demonstra um despreparo que só não impressiona porque já se sabe que hoje em dia está assim no jornalismo) e foi atrás do histórico do jornalista, encontrando várias manifestações suas em apoio ao PT, a Lula e à Dilma Rousseff, algumas delas de um despreparo político ridículo. O que se formou a partir disso foi um espetáculo grotesco — infelizmente tão comum que ninguém pode se fazer de surpreendido nem de vítima — com manadas de ignorantes impelidas ao ataque, inclusive a esquerda comprometida com o governo petista derrubado pelo impeachment. A única diferença é que a esquerda teve dispersada a poderosa manada de antes e agora só ataca em pequenos bandos.
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POR José Pires

O exemplo de conduta de Sergio Moro

O juiz federal Sergio Moro deu uma entrevista ao Wall Street Journal, publicada nesta terça-feira, onde fez uma declaração muito importante nesses tempos em que o Brasil parece assolado por enxames de moscas azuis. Hoje em dia dá a impressão de que o único jeito de fazer algo que preste na vida é sendo presidente da República. Mesmo com as amplas referências de que isso é uma ilusão. Basta alguém se destacar em alguma coisa, que já surgem conversas de candidatura e logo já estão colocando seu nome em pesquisas e até montando a chapa completa e escolhendo partido para o fenômeno político.

Mas vamos à declaração de Moro ao jornal americano. Mais uma vez ele negou que vá se candidatar em 2018 e disse o seguinte: “Se eu entrasse para a política, daria uma falsa impressão sobre as razões de minha conduta. É possível influenciar positivamente a sociedade sem ser presidente da República”.

Esse ponto sobre as “razões de minha conduta” é essencial na negativa de Moro. Atualmente, quando alguém está fazendo algo de bom surgem especulações sobre sua entrada na política. Pode acontecer também que a pessoa já esteja ocupando um cargo, aí então aparecem as pressões para que abandone o serviço pelo meio. E com isso vem o descrédito sobre suas razões profissionais ou de conduta, como disse Moro, às vezes atingindo a totalidade do que ela vinha fazendo e atrapalhando toda uma realização de equipe.

Pode acontecer até da opção individual pela política contribuir para a desmoralização da própria instituição onde a figura picada pela mosca azul atingiu uma relevância que trouxe o papo de que candidatando-se ou apoiando determinado candidato é possível ter maior influência positiva.

Já vimos muito trabalho bom se perder em nosso país em razão desse comportamento, que cabe dizer que sempre foi muito forte na atuação da esquerda, que tem como prática antiga o comprometimento direto das pessoas com bandeiras políticas e até com projetos eleitorais ligados a partidos. Com isso, até obras musicais e literárias historicamente importantes acabam comprometidas unicamente com uma forma de pensamento, às vezes envolvidas em intrigas meramente eleitoreiras, de tal modo que depois fica muito difícil ouvir aquela música de que tanto gostávamos ou ler aquele autor cujo livro não saía da nossa cabeceira.

É disso que Sergio Moro está falando. E disse no momento certo, além de estar na posição ideal para o alerta sobre o risco do desmonte moral e profissional que pode ser causado pela ilusão da política como um meio mais rápido de alcançar determinados fins.
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POR José Pires

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O debate indigesto da nova ideia de João Dória

O prefeito João Doria apresentou uma boa ideia que já vem sendo bombardeada, nesta tarefa de desconstrução da sua imagem, moda atual em que todos buscam tirar uma casquinha. A mais nova encrenca enfrentada pelo prefeito paulistano é a do alimento processado a ser distribuído entre pessoas pobres, uma invenção para a qual já estão querendo dar o apelido ruim de "ração”. A informação de que o produto é feito a partir de alimentos próximos à data de vencimento também vem sendo usada para caracterizar mal o produto, por mais que isso seja aceitável e até já aconteça de empresas doarem alimentos próximos do vencimento. A novidade no que Doria está implantando é o formato granulado, cujo processamento tem a capacidade de alongar a data de validade desses alimentos.

Como não podia deixar de ser, já apareceram teóricos para desqualificar o projeto da prefeitura com palavras bonitas. Um pesquisador da Unifesp disse que o produto “descontextualiza totalmente o caráter do que é comer”. Outros falam do respeito ao caráter cultural do alimento. E por aí vai. Mas o granulado do Doria nada mais é que algo parecido a produtos que estão à venda em lojas principalmente de alimento integral. E que são até bem caros. O aspecto desse granulado até que é dos melhores. E obviamente não é apenas esse tipo de alimento que vai constar na cesta básica dos mais pobres. Neste tema, aliás, o prefeito já andou oferecendo até omeletes para moradores de rua.

O que querem mesmo é pegar no pé de Doria o que seria feito com ou sem o granulado. Mas a verdade é que pode ter faltado um cuidado maior para apresentar a proposta, que caiu de imediato na boca da oposição e tornou-se mais um fato polêmico. E ainda teve descuido de assessoria, com o secretário de Assistência Social, Felipe Sabará, caindo na besteira de provar o granulado a pedido de uma rede de TV. Logo destacaram uma imagem parada na qual parece que ele comeu e não gostou, o que não é confirmado pela imagem em movimento e nem por sua declaração. Mas quem é que vai conferir veracidade, nesses tempos em que a ironia e a desqualificação é que pautam a maioria dos debates? O objetivo da prefeitura é altamente nobre, de evitar que alimentos sejam jogados fora. A lei é do próprio Doria. Porém, o debate já começou do modo usual, pela busca de defeitos e o estímulo para que a coisa não dê certo. É o preço que o prefeito paga por ser presidenciável e parte desse custo vai também para a população, com o desmonte pretensamente jocoso de boas ideias administrativas.
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POR José Pires

Lula e Marisa: o casal milionário

Saiu o inventário de Marisa Letícia, morta em fevereiro deste ano. A relação de bens dela e do marido, o ex-presidente Lula, mostra que estamos falando de milionários. O patrimônio dos dois chega a quase 12 milhões de reais. Bem, com essa fortuna revelada agora, tive que ir atrás da última declaração de bens de Lula, apresentada à Justiça Eleitoral em 2006. Disputando o segundo mandato, ele tinha então R$ 839.033,52 de patrimônio. Em dez anos foi um enriquecimento e tanto. Esse Lula tem mesmo uma prodigiosa habilidade em negócios. A menos que ele diga que isso também é por conta de dona Marisa.
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POR José Pires

Gleisi Hoffmann: prestígio em baixa até na Rússia

A senadora Gleisi Hoffmann e seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo, foram vaiados na Rússia. Vaia internacional não é pra qualquer um. O casal foi vaiado neste domingo por um grupo de brasileiros, durante visita ao Museu Hermitage, em São Petersburgo. Não se sabia dessa inclinação pela arte dos dois petistas, mas o passeio diz muito da imoralidade desses tempos. Enquanto os brasileiros sofrem os efeitos terríveis do governo do PT, dois dos responsáveis pela tragédia nacional — ambos réus no STF por corrupção — fazem turismo.

O Hermitage é conhecido pelo grandioso acervo, com obras modernistas maravilhosas, de artistas como Matisse, Picasso, Monet, Gauguin e outros grandes mestres. O rico acervo nada tem a ver com o sistema comunista tão admirado por Bernardo e Gleisi. É de antes da revolução de 1917, quando uma elite de alta qualidade intelectual já tinha olhos para o que de melhor se fazia na arte ocidental. Era preciso muita sabedoria para compreender propostas que o público nem queria ver nessa época. Parte essencial da coleção do Hermitage vem de visionários, como o industrial russo Serguei Shchukin.

Mas voltemos à vaia ao casal petista nos corredores do museu russo. Isto é só uma pequena mostra dos dissabores reservados aos dois, especialmente para Gleisi Hoffmann, que ainda está com a intenção de manter a carreira política. A presidente do PT precisa muito de um mandato para ajudar na sua defesa, ela que na planilha da Construtora Odebrecht é chamada de “Amante”. Caso não tenha sido condenada e presa até a próxima eleição, sua campanha em 2018 não terá nenhuma das facilidades das anteriores, principalmente no fator financeiro, que permitia a contratação dos marqueteiros mais caros do ramo.

É evidente que o Senado estará livre de sua presença. Em baixa no seu estado, o Paraná, Gleisi só pode tentar uma eleição para a Câmara Federal. E isso vai abrir uma acirrada disputa interna no PT estadual. O partido vem caindo ano após ano. Nesta última eleição municipal a performance petista foi um desastre em todo o estado. No plano federal, de 2010 para 2014 a bancada caiu de cinco para quatro deputados eleitos. E em 2014 a eleição foi com Dilma Rousseff na cabeça de chapa, com a dinheirama correndo solta, conforme foi revelado depois pela Lava Jato. Também em 2014, Gleisi já mostrou como vai mal de prestígio eleitoral. Disputou o governo estadual e foi um fiasco: ficou em terceiro lugar, com 881.857 votos. Portanto, são péssimas as previsões para a carreira política da senadora petista. É provável até que no ano que vem Gleisi tenha saudades dos bons tempos, esses de agora, quando é vaiada na Rússia.
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POR José Pires